O Dia em que o Santos de Pelé Parou uma Guerra

30 de maio de 2024


Em 4 de fevereiro de 1969, uma terça-feira, a Guerra de Biafra parou para o povo nigeriano ver o Santos jogar. Em partida que não havia sido programada pelo empresário Samuel Ratinoff e só foi decidida após o Santos ter recebido garantias de que sua permanência seria segura, o Alvinegro Praiano jogou em Benin, quase na fronteira da Nigéria com a região separatista de Biafra, e venceu a Seleção do Meio Oeste por 2 a 1. Esse evento entrou para a história como a primeira vez que um time de futebol conseguiu interromper um conflito armado, demonstrando o poder unificador e pacificador do esporte.

A Confederação Brasileira de Desportos (CBD), que estava em conflito com a Confederação Sul-Americana, havia decidido que Santos e Internacional, campeão e vice-campeão do Brasil em 1968, não participariam da Copa Libertadores de 1969. Não era a primeira vez que clubes brasileiros preteriam a oportunidade de disputar o torneio continental, priorizando outras competições ou compromissos.

A delegação santista estava acompanhada do jornalista Gilberto Marques, de A Tribuna. Segundo ele, o tenente-coronel Samuel Ogbemudia, governador da região, liberou a passagem pela ponte que ligava Benin à cidade de Sapele. Além disso, decretou feriado depois do meio-dia para que as pessoas pudessem assistir ao jogo. Essa atitude demonstrou a importância do evento e a paixão do povo nigeriano pelo futebol, capaz de unir uma nação mesmo em tempos de guerra.

A Guerra de Biafra, também conhecida como Guerra Civil Nigeriana, foi um conflito devastador que ocorreu entre 1967 e 1970, resultando na morte de aproximadamente um milhão de pessoas, em grande parte devido à fome e doenças. A guerra foi causada pelo desejo da região sudeste da Nigéria, majoritariamente habitada pelo grupo étnico Igbo, de se separar e formar a República de Biafra. A Nigéria, por sua vez, lutava para manter sua integridade territorial. Em meio a esse cenário caótico e de profundo sofrimento, o futebol trouxe um momento de trégua e esperança.

O jogo do Santos em Benin não foi apenas uma partida de futebol; foi um evento que proporcionou uma pausa na violência e deu aos nigerianos um motivo para celebrar e se unir, ainda que por um curto período. A presença de Pelé, um dos maiores jogadores de todos os tempos, certamente contribuiu para a magnitude do evento. Pelé e seus companheiros de equipe se tornaram símbolos de paz e reconciliação, mostrando que o esporte pode transcender as barreiras políticas e sociais.

A atuação do Santos nessa época era marcada por sua excelência em campo e por sua capacidade de atrair grandes públicos e atenção internacional. O time de 1969, que contava com estrelas como Pelé, Carlos Alberto Torres, Clodoaldo, entre outros, era um dos mais temidos e respeitados do mundo. Suas excursões internacionais não apenas popularizaram o futebol brasileiro, mas também mostraram ao mundo a habilidade e o talento dos jogadores brasileiros.

O impacto desse jogo foi profundo. Ele demonstrou que, mesmo em tempos de conflito, a humanidade pode encontrar maneiras de se unir e celebrar. A decisão da CBD de não participar da Libertadores naquele ano acabou permitindo que o Santos realizasse essa importante excursão pela África, levando alegria a um povo sofrido pela guerra.

Esse episódio histórico é um testemunho do poder do esporte como ferramenta de paz e reconciliação. A interrupção da Guerra de Biafra para assistir a um jogo de futebol é um exemplo de como o esporte pode influenciar positivamente a sociedade, proporcionando momentos de alívio e união em meio a circunstâncias adversas. O Santos, ao jogar naquela terça-feira de fevereiro de 1969, não só fez história dentro de campo, mas também deixou uma marca no coração do povo nigeriano e na memória do futebol mundial.


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